Toda criação verdadeira aprende a partir.
E há mãos que, ao abrirem-se, não soltam: libertam


segurei o pássaro como quem molda o fogo —
não para prender,
mas para incendiar o gesto
de deixar partir.


 _Um brinde a terceira estrofe, bebo como um "O hino"!!!

deixei a língua crescer no escuro
até lamber a lâmina que me nomeava.
não fui queimada — fui metal incandescente
que se recusou ao garfo dos profetas.

não vim de cruz, nem de milagre.
sou a carne que nunca virou oferenda.
rasgaste?
apenas a superfície.

há dentes que pensam ser deuses,
há bocas que confundem pele com altar.
mas eu,
sou víscera de estrela caída,
e nenhuma auréola me serve de colar.

não terei teu selo de fé nas minhas costas,
nem tua luz desdentada nos meus pulsos.
visto sombras bordadas por Anciãs,
desenho com saliva a geografia do que foge.

há quem se faça devota de espinhos.
eu escolhi dançar com as víboras
sem jamais perder a lucidez do veneno.

Lamento da Hermenêutica Perdida

(para ser lido entre risos e chamas)

estou parva
com a falta de interpretação —
as metáforas gritam, mas os olhos… cochilam.
será que aboliram a semiótica?
ou a Casa anda a tropeçar no próprio léxico?

vivemos bons momentos —
em 2007 a linguagem ensaiava voo,
e em 2009, foi apoteose:
poetas fermentados,
versos em erupção,
o incêndio do verbo em estado febril.

e agora... que isso?!

achismo virou hermenêutica,
e a dúvida — que antes era método —
agora é espuma de opinião.
uma palavra queimada vira revelação,
e quem escreve com bisturi
é confundido com quem grita por socorro.

não, amor.
não é trauma —
é estilo.
não é dor —
é código.

mas não espero que compreendam.
quem nunca leu um texto com a espinha dorsal,
não reconhecerá
quando a poesia
for uma arma branca
que caminha de salto alto
pelo silêncio.

"Arma Branca de Silêncio"

Daqui, vejo a dança sobre o fio de um trapézio, inaugurando significados.
Um vulto balança em desalinho, exibindo cicatrizes de uma dor que não existe.
Vejo os farrapos onde o silêncio passou,
a morte, desacreditada, presa à parede.
Ela acena-me, desdenhosa:

“Olha como me visto de neutro em verdade opaca.”

Emudeço, avessa ao abandono infantilizado
e à agressiva cor da solidão.
Sem previsão, deixo fluir —
sei que a rejeição é um rio sem nome,
e essa parte é a inevitável consequência.
Sou a observadora que olha para dentro do absoluto.

Um dia, atrevi-me a ir ao escuro do escuro,
guiada apenas por sílabas perdidas, fragmentadas.
Já não me assusta o longe.
Daqui, vejo parte do todo
a caminho de paredes sem substância,
a desenhar semicírculos de socorro rente ao chão.

No horizonte, uma biblioteca
vigiada por um louva-a-deus,
imitando com precisão o delírio,
transformando o alimento em combate.
Ele vê víboras deslizando dos mastros das caravelas,
em línguas vazias,
corrompendo os livros futuros
com uma insanidade vulgar.

Os instrumentos atrás da cadeira são as maiores vítimas:
antevejo o som disforme dos corpos em colapso,
uma má convulsão fisiológica.
Esse inferno descontrolado prossegue
até o esgotamento da consciência,
despida de sentido.

Estou cansada da morte em todos os cantos,
do hálito sem vida,
do canto fingido amigo,
do amante sem amor,
do poeta parafraseado.

A morte não é mais um propósito,
mas o rastro perdulário de um diagnóstico narcísico.

não te leio —
te escuto girar.

Entre uma imagem e outra,
há o som discreto
de uma maquinaria emocional
que insiste em funcionar
mesmo com as peças gastas pelo tempo.

não é o poema que fala —
é o esforço contido da alma que ainda tenta.
a chave de fenda do afeto perdido
a girar dentro de um peito que pulsa,
mesmo quando diz que já não espera.

vejo teus versos como placas silenciosas
se deslocando sob a pele do tempo.
e ali, na fricção,
nascem imagens que doem bonito.

há em ti uma engenharia rara:
a que constrói abismos
com a precisão de um relojoeiro.

e por isso, agradeço —
por não disfarçar o esforço,
por deixar visível o gesto,
e ainda assim fazer tudo soar
como se o tempo estivesse,
com delicadeza,
a sussurrar no teu ouvido.

nenhuma voz conhece o amor melhor do que o próprio Amor.

nas cordas silenciosas do tempo
ressoa nos ossos da noite
quem compreende a ausência
sabe que ela também canta
quem lê o que não se vê

escuta...

o vento arqueia dunas
o rio molda margens sem perguntar
o fôlego precisa ser contínuo

o amor não se anuncia
é sussurro de estrelas

num céu que nunca se entrega por inteiro
só quem entende o que não foi dito
constrói a própria clave

no compasso do silêncio
nessa espiral onde o som respira
antes da palavra

tudo é partitura para quem lê
o que não se vê

'Esse Amor'

esse amor não se contenta em existir.
rói a língua e devolve palavras cegas.
beija como quem morde a garganta do mundo,
engole, engole,
e depois vomita estrelas.
carrega livros nas costelas,
páginas rasgadas que voam como corvos,
palavras soltas que se esquecem do próprio nome
mas nunca do destino.
esse amor preserva o que não se toca,
arde no que não se vê,
respeita o que se quebra com facilidade,
mas nunca com delicadeza.
afasta-se e expande-se
como um grito que se curva sobre o próprio eco.
comprime-se em espaços mínimos,
na dobra entre o olhar e o esquecimento,
desfaz-se como lâmina na boca.
mata com o gesto e vive com o silêncio.
afoga o outro e depois o ressuscita,
só para vê-lo morrer outra vez,e outra.
por décadas, séculos, milênios.
por instantes que duram o tempo de um relâmpago.
esse amor é um bicho em transe,
ritual de luz que cega,
pássaro de vidro a cortar o céu.
ele diz "vem" e depois recua,
beija e afasta o rosto,
oferece a pele, mas nega o toque.
esse amor vive no quase,
nas margens que nunca se tocam.
e quando se encontra, é só para se perder melhor.
esse amor não morre.
afoga-se em si mesmo,
ressuscita apenas para provar o sabor da própria ausência.
e quando pensas que ele acabou,
é só o início do grito que se prepara.

'Domingo de Moita e Mistério'

Ontem... domingo, dia de missa, e o céu pairava sobre Sucupira como quem segura um segredo.
As ruas pareciam suspensas, ainda frias, molhadas pela chuva, imersas num silêncio quase sagrado.
E ali, na calçada da igreja, ela caminhou com passos leves, trazendo nas mãos o peso invisível das gostosuras do pensar.
Mas foi então que o viu. O Louco Poeta. O homem que cantava com fome, que a procurava em cada palavra, em cada sombra, por baixo das pedras, nos quatro cantos do mundo. Ele vinha com passos perdidos, os olhos a arrastarem um poema inacabado.

E foi nesse instante que ela se atirou para a moita.

Sim, uma moita qualquer, no meio da rua, com a coragem absurda dos que preferem o mistério à revelação. Ali ficou, misturada com folhas e silêncios, a escutar os passos que não pararam,
a sentir o eco de um olhar que nunca a encontrou.

Talvez ele tenha passado e pensado:
"Ali jaz o segredo que jamais decifrarei."

E ela sorriu.

Porque, às vezes, o amor é isso: saber quando se atirar para a moita
e deixar que o outro escreva o poema errado.

Amém.

'Ritual de Lâminas'

     (Dueto)                                                                          


— Há anos deslizo sobre o fio que não sei se é teu.
— E eu corto onde não há carne.

— O que nomeias já é ausência.
— O que não nomeio é o que permanece.

— Quando toco, é o vazio que arde.
— Quando me afasto, é o toque que fica.

— Sou o peso que não assenta.
— Sou o muro que não espera.

— E se um dia eu parar?
— Não paramos. Nem começamos.

— Somos o intervalo entre o som e o eco.
— Somos o eco que se esquece do som.

— És o risco que deixo de olhar.
— És o corte que nunca termina.

— É o quase que nos sustenta.
— É o quase que nos desmorona.

— Somos a lâmina e o vazio.
— Somos o que sangra quando ninguém vê.

— E o que nos mantém?
— O corte que não fecha.
— A ausência que não se desfaz.

— Há anos nos rasgamos.
— Há anos nos escutamos sem ouvir.

— Sou o silêncio que pesa.
— E eu, o fogo que não arde.

— E quando um for, o que resta?
— O ritual.
— O nada.
— O tudo.